7.24.2008

Enquanto ainda aqui estás

Enquanto ainda aqui estás, sempre de barba por fazer e guitarra às costas, percorro contigo o caminho que desenhaste para te perderes – e que então te pedi para me desenhares no peito. Enquanto ainda cantamos “the answer, my friend, is blowin’ in the wind, the answer is blowin’ in the wind” em surdina, não damos mãos nem olhares que isso parte a dor em dois, partilhamos antes vontades e cigarros.
E, entretanto, deixas-me entrar em ti de mansinho, sem saberes ou fingires não saber para que o faça à vontade, agarrar o que é teu e fazer meu o teu corpo.
Sinto as marcas das cordas da tua guitarra nas minhas mãos, a chuva que nos lava a cara, a lama nos nossos pés, a vontade de querer na vida não mais do que música, risos e sexo.
Gozamos a vida do lado de fora, onde as pessoas são viradas do avesso, onde os hipócritas não têm direito a respirar e onde a música é Bob Dylans, Beatles, Libertines e Amys limpas que não rebentam o balão na cara de pseudo-fãs que acham que um Keith Richards em versão feminina é o sonho de qualquer homem tornado realidade.
O sabor da liberdade que nunca me tinha tocado os lábios e o coração que dá voltas pelo corpo todo e que se atira contra a parede num momento de euforia em que as luzes febris nos voltam a perseguir doentiamente, em que as rodas do comboio voltam a roçar no metal e a guinchar estridentemente, tão estridentemente que nos rasga os tímpanos, em que tudo o que é estridente, agudo, penetrante, ofuscante nos volta a assaltar os olhos, a mente e o corpo adormecido. Num momento em que as orgias de palavras se atropelam de novo na boca e em que gritamos obscenidades em uníssono como se alguém nos ouvisse, alguma vez, se é que queremos que alguém, para além de nós, nos oiça.
É a materialização do orgasmo não mais fingido. É sentir a implosão de sentidos dentro de ti como se fosse dentro de mim ou sei lá se ao contrário: é trincar a terra, lamber a chuva e rasgar o vento. Ah!, é a vida de volta à vida!

E quando, enfim, ficar sozinha de vontade, liberdade, cigarros e caminhos então perdidos, o coração atirado à parede lá ficará no sítio da materialização da vida. No sítio em que as canções em surdina e as orgias confusas fazem sentido. Deixarei lá o meu coração, mais vermelho do que nunca no fundo da parede suja, pois quando me atirares de novo para o lado de dentro da vida, já não precisarei mais dele. E quando, enfim, não mais aqui estiveres.