Nota prévia: Espero não ofender ninguém, nem ferir susceptibilidades. É, apenas, um texto exagerado. Desde já as minhas desculpas, mas foi o que saiu depois de ver o filme Expiação - que mereceu, sem sombra de dúvida, todas as nomeações para os óscares que recebeu. Espero que gostem (e que vejam o filme).
Chegaste tarde, num dia fechado de cinzento a cheirar a terra pisada e a cigarros apagados. Chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio para onde nunca foste, do sítio onde nunca estiveste.
Caminhaste sobre a lama, quando já não chove há dias, pisaste o chão morto, as flores murchas e as folhas secas, a murmurarem estalidos por baixo dos teus pés estupidamente limpos. Cheiraste o odor dos cadáveres espalhados como o tapete da tua chegada – ou da tua partida – e o sangue das lágrimas das mulheres que puxavam a tua túnica arrogantemente imaculada numa última súplica doentia.
Viste soldados mutilados, sem mãos para rezarem por ti, sem pernas para se ajoelharem perante ti, sem coração para to venderem a ti. Soldados bêbedos que gritavam por ti, como se viesses limpar-lhes o sangue ressequido da cara e a terra fétida dos pés.
Moribundos arrastavam-se pelos restos das casas, das ruas, das vidas, com revólveres na mão. Desejavam por tudo ter balas, mas nem isso lhes deste.
Continuaste o teu passeio, sob almas de gente podre sem corpo, com a mágoa chapada no teu rosto irritantemente sereno. Levantaste os que ainda restavam, as mulheres, as crianças, os soldados mutilados e os moribundos, como se eles não voltassem a cair, como se eles não voltassem a cair nunca mais. Como se aqueles corpos deteriorados acreditassem, ainda – esquece, eles são o resto do teu nada.
É este o Mundo que criaste e que dizias ser teu. Estes são os que esfregaram os joelhos na pedra fria e que lavaram o corpo e a alma que lhes deste na água da tua Casa. Aqueles que te falaram e que julgaram falar-te, no meio das suas preces por um dia melhor que nunca chegou.
Afinal, chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio onde nunca estiveste. Por favor, volta para lá, para o sítio de onde nunca vieste.