Nota prévia: Espero não ofender ninguém, nem ferir susceptibilidades. É, apenas, um texto exagerado. Desde já as minhas desculpas, mas foi o que saiu depois de ver o filme Expiação - que mereceu, sem sombra de dúvida, todas as nomeações para os óscares que recebeu. Espero que gostem (e que vejam o filme).
Chegaste tarde, num dia fechado de cinzento a cheirar a terra pisada e a cigarros apagados. Chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio para onde nunca foste, do sítio onde nunca estiveste.
Caminhaste sobre a lama, quando já não chove há dias, pisaste o chão morto, as flores murchas e as folhas secas, a murmurarem estalidos por baixo dos teus pés estupidamente limpos. Cheiraste o odor dos cadáveres espalhados como o tapete da tua chegada – ou da tua partida – e o sangue das lágrimas das mulheres que puxavam a tua túnica arrogantemente imaculada numa última súplica doentia.
Viste soldados mutilados, sem mãos para rezarem por ti, sem pernas para se ajoelharem perante ti, sem coração para to venderem a ti. Soldados bêbedos que gritavam por ti, como se viesses limpar-lhes o sangue ressequido da cara e a terra fétida dos pés.
Moribundos arrastavam-se pelos restos das casas, das ruas, das vidas, com revólveres na mão. Desejavam por tudo ter balas, mas nem isso lhes deste.
Continuaste o teu passeio, sob almas de gente podre sem corpo, com a mágoa chapada no teu rosto irritantemente sereno. Levantaste os que ainda restavam, as mulheres, as crianças, os soldados mutilados e os moribundos, como se eles não voltassem a cair, como se eles não voltassem a cair nunca mais. Como se aqueles corpos deteriorados acreditassem, ainda – esquece, eles são o resto do teu nada.
É este o Mundo que criaste e que dizias ser teu. Estes são os que esfregaram os joelhos na pedra fria e que lavaram o corpo e a alma que lhes deste na água da tua Casa. Aqueles que te falaram e que julgaram falar-te, no meio das suas preces por um dia melhor que nunca chegou.
Afinal, chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio onde nunca estiveste. Por favor, volta para lá, para o sítio de onde nunca vieste.
10 comentários:
Viste? Passou. E, cá está, mais uma prova daquilo que eu digo sempre: "A Joana, das que eu conheço, é a pessoa da nossa idade que escreve melhor".
Passou Ju, passou. Foi-se embora. E cá estás tu, de novo, em grande.
(Quero ver o filme. Num dia em que me aguente nas pernas).
Tenho que confessar que não tinha vontade de ver o filme até ler o que escreveste.
E tenho que confessar também que valeu a pena esperar por este texto. Já sentia falta das tuas descrições intensas e exaustivas. O tipo de escrita que ainda não sou capaz de fazer. Por mais que me esforce. Um dia ainda tens que me explicar como se faz :)
E concordo plenamente com a afirmação da Luísa.
"...volta para lá, para o sítio de onde nunca vieste." - Genial
Beijinhos
João
PS. Prometo que vou ver o filme. E ainda estou à espera do meu chupa-chupa. E pode ser de morango. São os melhores.
ja vi o filme e posso dizer com toda a certeza que chorei, fui a única mas chorei e nao tive medo d chorar ! sem duvida o melhor filme de sempre ' .
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escreves lindamente! =)
Muito bonito, mesmo.
volta a escrever por favor <3
*catarro*
É impossível nao ficar com vontade de ver o filme, depois deste texto.
Ai joaninha, joaninha, parabens ^^
Um beijinho *
(anita)
Deve ter sido talvez o melhor filme que vi nos últimos tempos. Perfeito. A imagem, a música, o texto. Magnífico filme!
E no fim dei por mim completamente arrepiada!
Quanto às tuas palavras... bem, tu escreves de uma forma... que nem consigo descrever. Dás vida às palavras, dando-lhes emoções, sentimentos...! Continua!
Beijinho,
Rita
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