11.18.2007

Em surdina

Chegou-se ao de leve a mim e despiu-me suavemente a vontade. Limpou-me a esperança espalhada pelo corpo; pegou numa borracha e apagou-me o sorriso da cara. Entrelaçou-me as mãos com fios de abdicação e deu nós cegos à liberdade. Besuntou-me os pés com uma pasta que, pela textura, me parecia conformidade misturada com um bocadinho de “foi sempre assim, e assim será”.

Antes de partir, ainda teve tempo de pegar em mim e me sentar sobre as primeiras folhas de Outono, que caíam, ousando apagar os restos de areia que salpicavam o chão. Afastou-me os pés do corpo e mergulhou-os numa poça de água. Água essa que havia perdido o sal, mas que nem doce era: era suja, enlameada, sem vida. O espelho da alma.

Deixou-me ali, no meio da melancolia que bailava ao ritmo do vento, a olhar para os tons mortos que pintavam o céu. Se não me tivesse despido de vontade, teria pintado o céu com todos os tons de cor-de-rosa e mais alguns que pudesse inventar. Ainda teria tempo para despejar a areia dos bolsos e salgar a água de vida.

Mas não. O Outono veio para ficar.


4 comentários:

SA. disse...

O Outono é bonito.
Há Outonos mais bonitos do que outros, a parte boa dos maus Outonos é que para o ano há mais^^

Luisa Oliveira disse...

(Qualquer dia vais-me explicar como é que escreves estas coisas, não vais?)

Veste-te de novo. Pega na espada e destrói este Outono mau; tenho a certeza que, por detrás dele, há um muito mais bonito.

Luisa Oliveira disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Joana disse...

estás a vê-lo? ^^



(a parte boa doas outonos maus é que depois do inverno e da primavera virá o verão. isso sim!)