Querido Álvaro de Campos,
Escrevo-lhe na estação a meio de lugar nenhum – afinal, não sei bem para onde vou, nem muito menos para onde quero ir. Confesso que sinto uma enorme vontade de lhe falar outra vez.
Já passou muito tempo desde aquela conversa, ou monólogo, diria melhor, e, durante estes meses, tenho vivido o mundo como me ensinou. Sim, vivê-lo e não vê-lo passar de mãos dadas com os outros. Sabe que sou uma pessoa influenciável e Reis quase que me convenceu de que o mundo é belo sem ser tocado, para não se estragar. Agora que penso nisso sinto-me ingenuamente ridícula e pequena. Como pude perder tanta vida à minha frente? Agora não a deixo, sequer, fugir-me da mão.
Lembra-se de me falar das máquinas? Oh, eu lembro-me tão bem! Falou-me das suas rodas, das suas engrenagens, da fúria das máquinas, da sua beleza, da sua força, da sua perversão sexual. Falou-me da febre das luzes ofuscantes a perseguirem-nos febrilmente por todo o lado, a televisão aos berros e a música estridente da rádio que nos entra pela garganta e faz vibrar os músculos do coração.
As bebedeiras nas tabernas mais sujas e hediondas de Lisboa, os monólogos declamados numa orgia furiosa em pleno Piccadilly, as mulheres na beira das estradas que pediam carne, carne e mais carne, desejo e dinheiro, nada mais do que dinheiro. Aquelas mulheres que se levam para casa nem se sabe como de tão feias que são e, mesmo assim, feias, imundas, mal vestidas, provocam orgasmos como as rodas dos comboios que roçam nos carris a alta velocidade numa energia que transborda.
E tudo é máquinas, masoquismo, depravação, Mundo Moderno!
Tudo isto sai-me de dentro como se tivesse sido eu em cada sítio. Escrevo daquela maneira ansiosa por chegar à próxima letra, à próxima frase, ao próximo clímax que me leve daqui para fora e daqui para dentro. Já nem são os sons, os objectos, os sons, nem os sabores que me fazem desejar tudo. São, sim, as palavras escritas a tinta carregada, que borra o papel, que saem e entram em tudo como se fossem coisas. Coisas, meu deus!
Dá-me vontade de ficar aqui a escrever-lhe como se não houvesse amanhã, como se este querer ganancioso não me deixasse nunca. Mas, infelizmente – ou talvez, felizmente para si que não tem de ler frases sem sentido escritas por uma rapariguinha que o acompanhou numa bebedeira casual da vida, porém foi isto que me ensinou, talvez a culpa de me ter inundado seja sua – (ainda) não sou uma viajante do Mundo. Ainda não me consegui desprender da vida que levava antes de o senhor aparecer – agora a minha cronologia é A.C. e D.C., explicitando, Antes de Campos e Depois de Campos. Não consegui meter numa mala de viagem alguma roupa de interior, produtos de higiene, livros, um caderno e uma caneta, sair do sítio ao qual chamo casa, e partir para o Mundo.
Desculpe a maçada, mas peço-lhe, nem que seja como favor, que me escreva, que me fale, o mais depressa possível.
Um abraço fechado,
A rapariguinha da bebedeira casual da vida