10.14.2011
8.17.2009
Cerveira, vila encantada
Cerveira, vila das artes.
O verde que pinta a terra e me enche os pulmões de ar.
O ar puro que acalma os passos fugazes e incertos da cidade.
A pedra antiga que ergue o passado.
As pessoas que preenchem os espaços vazios da rua. As pessoas que dão o seu tempo às cadeiras dos cafés em conversas de circunstância, de rotina, da vida.
A arte.
A cultura.
A calma de tomar café num barco à beira-rio.
As caminhadas que cansam o corpo, mas nunca a alma.
A comida péssima da pousada.
Os sofás que aconchegam o cansaço da vida lá fora.
O polícia e a senhora da limpeza.
A vida de Cerveira. Cerveira, vila encantada.
Até breve.
Só para avisar que ainda estou viva. Pouco tenho escrito desde o último post e deixou de fazer sentido escrever no blog, mas apeteceu-me deixar aqui qualquer coisinha.
Continuação de boas férias. :D
7.24.2008
Enquanto ainda aqui estás
E, entretanto, deixas-me entrar em ti de mansinho, sem saberes ou fingires não saber para que o faça à vontade, agarrar o que é teu e fazer meu o teu corpo.
Sinto as marcas das cordas da tua guitarra nas minhas mãos, a chuva que nos lava a cara, a lama nos nossos pés, a vontade de querer na vida não mais do que música, risos e sexo.
Gozamos a vida do lado de fora, onde as pessoas são viradas do avesso, onde os hipócritas não têm direito a respirar e onde a música é Bob Dylans, Beatles, Libertines e Amys limpas que não rebentam o balão na cara de pseudo-fãs que acham que um Keith Richards em versão feminina é o sonho de qualquer homem tornado realidade.
O sabor da liberdade que nunca me tinha tocado os lábios e o coração que dá voltas pelo corpo todo e que se atira contra a parede num momento de euforia em que as luzes febris nos voltam a perseguir doentiamente, em que as rodas do comboio voltam a roçar no metal e a guinchar estridentemente, tão estridentemente que nos rasga os tímpanos, em que tudo o que é estridente, agudo, penetrante, ofuscante nos volta a assaltar os olhos, a mente e o corpo adormecido. Num momento em que as orgias de palavras se atropelam de novo na boca e em que gritamos obscenidades em uníssono como se alguém nos ouvisse, alguma vez, se é que queremos que alguém, para além de nós, nos oiça.
É a materialização do orgasmo não mais fingido. É sentir a implosão de sentidos dentro de ti como se fosse dentro de mim ou sei lá se ao contrário: é trincar a terra, lamber a chuva e rasgar o vento. Ah!, é a vida de volta à vida!
E quando, enfim, ficar sozinha de vontade, liberdade, cigarros e caminhos então perdidos, o coração atirado à parede lá ficará no sítio da materialização da vida. No sítio em que as canções em surdina e as orgias confusas fazem sentido. Deixarei lá o meu coração, mais vermelho do que nunca no fundo da parede suja, pois quando me atirares de novo para o lado de dentro da vida, já não precisarei mais dele. E quando, enfim, não mais aqui estiveres.
3.02.2008
Expiação
Nota prévia: Espero não ofender ninguém, nem ferir susceptibilidades. É, apenas, um texto exagerado. Desde já as minhas desculpas, mas foi o que saiu depois de ver o filme Expiação - que mereceu, sem sombra de dúvida, todas as nomeações para os óscares que recebeu. Espero que gostem (e que vejam o filme).
Chegaste tarde, num dia fechado de cinzento a cheirar a terra pisada e a cigarros apagados. Chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio para onde nunca foste, do sítio onde nunca estiveste.
Caminhaste sobre a lama, quando já não chove há dias, pisaste o chão morto, as flores murchas e as folhas secas, a murmurarem estalidos por baixo dos teus pés estupidamente limpos. Cheiraste o odor dos cadáveres espalhados como o tapete da tua chegada – ou da tua partida – e o sangue das lágrimas das mulheres que puxavam a tua túnica arrogantemente imaculada numa última súplica doentia.
Viste soldados mutilados, sem mãos para rezarem por ti, sem pernas para se ajoelharem perante ti, sem coração para to venderem a ti. Soldados bêbedos que gritavam por ti, como se viesses limpar-lhes o sangue ressequido da cara e a terra fétida dos pés.
Moribundos arrastavam-se pelos restos das casas, das ruas, das vidas, com revólveres na mão. Desejavam por tudo ter balas, mas nem isso lhes deste.
Continuaste o teu passeio, sob almas de gente podre sem corpo, com a mágoa chapada no teu rosto irritantemente sereno. Levantaste os que ainda restavam, as mulheres, as crianças, os soldados mutilados e os moribundos, como se eles não voltassem a cair, como se eles não voltassem a cair nunca mais. Como se aqueles corpos deteriorados acreditassem, ainda – esquece, eles são o resto do teu nada.
É este o Mundo que criaste e que dizias ser teu. Estes são os que esfregaram os joelhos na pedra fria e que lavaram o corpo e a alma que lhes deste na água da tua Casa. Aqueles que te falaram e que julgaram falar-te, no meio das suas preces por um dia melhor que nunca chegou.
Afinal, chegaste tarde, demasiado tarde, do sítio onde nunca estiveste. Por favor, volta para lá, para o sítio de onde nunca vieste.
2.02.2008
Querido Álvaro de Campos
Querido Álvaro de Campos,
1.20.2008
1.18.2008
Pregas na alma
Gostava de saber, afinal, quem foi que te disse que as nuvens não são feitas de algodão doce nem o céu de blue curação. Disseram-te que menti, foi? Disseram-te que o céu não é mais do que azoto e oxigénio e que as nuvens não passam de água condensada, a mesma que cai quando chove, que te molha os pés e que te estraga o penteado e que tu tanto odeias?
Diz-me quem foi.
Desculpa? Também te disseram que o coração não fala? E que a alma é uma invenção estúpida daqueles que não sabem agir de acordo com a sua própria consciência? Disseram-te que o coração é músculo, é sangue, é artérias e ventrículos, que tu não passas de células, tecidos, órgãos, ossos e pele, não é? Queres-me dizer, então, que o amor e desejo que sentes pelo animal racional capaz de usar a razão não passa de reacções químicas, ferormonas e tecidos erécteis?
Desconfio que não sabes que quando dobraste o coração para esconderes as fortes cores que lá pintei, deixaste gravadas “pregas na alma” – e mesmo passada uma eternidade (ou duas), mesmo já com as cores pálidas e amarelecidas pelo (voraz) tempo, as pregas vincam-te, ainda, o coração, a alma, o teu “músculo vermelho”, que é sangue, é artérias e ventrículos e todas as designações científicas que escondem o que só é tocado com as palavras. As palavras que te tocam, batem, deixam nódoas negras, cicatrizes, que te abraçam, beijam, penetram e ficam em ti.
♥
Nota: Sou uma (orgulhosa) aluna de Ciências.
Porque a Sara mandou e porque eu achei o projecto interessantíssimo, quem clicar no link abaixo referido, leva um chupa-chupa:
www.arcádia21.blogspot.com
12.25.2007
Chocolaterie
“Silenciosamente, seguiu-me até à cozinha. Um ponto a meu favor.”. Meti a marca d’O Principezinho na página 113 e fechei o livro. Calcei as galochas cor-de-rosa, enfiei o tapa-orelhas branco e saí de casa.
Estava tanto frio lá fora que não se via, nem sentia, mais nada na rua a não serem os carros abandonados ao frio cobertos de geada branca que me fazia lembrar o açúcar em pó sobre as filhoses da avó Ana. Apesar das doces lembranças, nada pairava no ar. Nem cheiros, nem sons, nem sabores. Meti-me por uma rua estreita e fui até Paris.
Andei cerca de meia hora até que aquele cheiro característico chegou até mim – parecia que estava à minha espera. Aquele cheiro a chocolate parecia inventado, mas não deixava de ser familiar a qualquer um.
Entrei e sentei-me no lugar habitual, onde se podiam observar as pessoas que passavam lá fora na rua de pedra escura como chocolate negro. Vianne sorriu para mim e serviu-me o mesmo de sempre àquela hora da manhã – batiam onze horas em ponto no relógio vermelho que fazia lembrar um rebuçado –: um capuccino com canela e um croissant com chocolate (massa feita no dia e chocolate com 70% de cacau, obviamente).
Lá fora não estava assim tanto frio como em casa, mas entre o cheiro delicioso da chocolaterie pairava o cheiro a esgotos que vinham da cidade. Um homem velho olhava-me do outro lado da rua. Apesar das cicatrizes que lhe cortavam os olhos e das rugas que lhe camuflavam a vista, sabia que estava a olhar para mim. Pobre velho. Não conseguia sentir a magia de Vianne.
Entretanto, chegaste. Aliás, já tinhas chegado há um bocado, visto que também tu já tinhas o habitual pousado à tua frente: licor de cereja com dois pauzinhos de canela e uma waffle simples, com duas pitadas de açúcar amarelo. (Nunca cheguei a perceber essa tua predilecção obsessiva pelo número dois.)
Falámos do Tempo até o vento soprar a favor. Paguei a conta e fomos embora. Olhei para trás e vi Vianne a olhar na mesma direcção que eu. Mal ela imaginava que os meus chocolates preferidos são as simples trufas de chocolate com pedaços de avelã (ela pensa que é algo muito mais complexo e exótico, vá-se lá saber porquê).
Pegaste-me pela mão – não, não me deste a mão, que coisa ridícula – e levaste-me aonde querias (sabias que adoro quando fazes isso? Adoro ir ao teu sabor.). Fomos pela Avenue des Champs Elysees até ao Jardin du Carrousel. Sentámo-nos no segundo banco do jardim a contar da esquerda a comer algodão doce até os nossos narizes se encherem do perfume das flores de Paris e dos esgotos das ruas povoadas de gente rica.
Quando voltámos, encheste a minha rua de sentidos: cheiros, sons e sabores.
Embrulhei-me no teu perfume e voltei para casa.
Nota: Sim, adoro Joanne Harris. ^^
12.18.2007
Tell me what you had for lunch
Vá lá, fica, só mais um bocado. Só desta vez. Só uma vez, para saber como é. Fala-me. Conta-me
Senta-te à minha frente na mesa do café que faz os melhores croissants com chocolate do mundo. Deixa-me saber como os teus lábios desenham as tuas palavras e como as tuas mãos se entrelaçam enquanto falas. Deixa-me contar as rugas à volta dos teus olhos quando te ris. Deixa-me saber se me olhas nos olhos. Por favor, fala-me. Mete-te na minha vida. Pergunta-me se bebo, se fumo, se roo as unhas, se adormeço todos os dias a pensar em ti.
Mas não fales, por favor. Não deixes que as tuas palavras batam nos meus ouvidos quando te fores embora. Não te quero ouvir, agora não. Já é demasiado doloroso saber que quando virares as costas, só vão restar coisas esvaziadas de sentidos.
E se não te fores embora? E se não te quiseres ir embora? Se tudo fosse, não existiriam saudades para serem escritas.
/Margarida Rebelo Pinto mode off
12.02.2007
Abre o teu livro sem teres medo que as folhas se rasguem e fujam. Cola-lhe post-its sempre que achares que está inacabado. Acrescenta-lhe um traço sempre que o sentires imperfeito. Arranca-lhe uma página quando te fartares. Sublinha-o a cor-de-rosa. Troça dos analfabetos da vida e ri-te dos teus erros próprios ortográficos. Abre-o e mostra ao Mundo que também amas.
11.30.2007
Eu também sei ser melosa.
“Gosto de ti. Gosto de te ter sem seres meu. Gosto de saber que o teu olhar me abraça a mim e só a mim. Gosto de sentir o calor do teu silêncio. Gosto das metáforas ilusórias. Gosto que sejas o doce depois do algodão, the tale after my fairy. Sim, gosto de ti, tanto. E tu?” Escreveu ela, para ele. Ele, claro, não viu, ela não lhe mostrou. Estupidez? Não, mais forte ainda: vergonha, receio. Receio que ele não fosse tão seu quanto pensava, que o abraço fosse, afinal de contas, um aperto, que o calor fosse artificial, que as metáforas fossem mesmo mais do que ilusões - mentiras, que o doce fosse amargo e o algodão, pedra (inquebrável). Este receio, torturante. Sufocante. Os nós dos dedos subiam-lhe à garganta quando pensava nisto (resumindo, tinha os dedos a ocuparem o espaço da garganta a maior parte do tempo, o que não era, de todo, agradável). Dizia-se forte, dizia-lhe que era forte, mas não era. Por isso era preciso tanto cuidado com ela.
11.26.2007
iogurtes de stracciatella e castanhas assadas
Não me és tudo. Se dissesse que sim estaria a mentir descaradamente. Não, não me és tudo. Se fosses não precisava de mais nada. Não precisava de todas as outras coisas que preenchem o meu todo, como os meus amigos e a minha família, ou os iogurtes de stracciatella, as castanhas assadas, os croissants com chocolate, ou até mesmo o doce de abóbora.
Se me fosses tudo, não precisava disto nem de mais nada. Tudo o que viesse não aquecia nem arrefecia. Conseguia viver contigo e sobreviver só contigo.
É mentira. E ainda mais. Creio que qualquer pessoa que diga a alguém “és-me tudo” está envolta numa depressão mais ou menos profunda. Ninguém vive em função de uma só pessoa – e se vive, é doente.
Existem mais de seis biliões de indivíduos no mundo e outros tantos seres vivos. Porquê ser apenas um deles o todo? É ridículo.
Por isso, não digo que me és tudo. Digo-te, sim, que preenches grande parte do meu todo.
11.18.2007
Em surdina
Chegou-se ao de leve a mim e despiu-me suavemente a vontade. Limpou-me a esperança espalhada pelo corpo; pegou numa borracha e apagou-me o sorriso da cara. Entrelaçou-me as mãos com fios de abdicação e deu nós cegos à liberdade. Besuntou-me os pés com uma pasta que, pela textura, me parecia conformidade misturada com um bocadinho de “foi sempre assim, e assim será”.
Antes de partir, ainda teve tempo de pegar em mim e me sentar sobre as primeiras folhas de Outono, que caíam, ousando apagar os restos de areia que salpicavam o chão. Afastou-me os pés do corpo e mergulhou-os numa poça de água. Água essa que havia perdido o sal, mas que nem doce era: era suja, enlameada, sem vida. O espelho da alma.
Deixou-me ali, no meio da melancolia que bailava ao ritmo do vento, a olhar para os tons mortos que pintavam o céu. Se não me tivesse despido de vontade, teria pintado o céu com todos os tons de cor-de-rosa e mais alguns que pudesse inventar. Ainda teria tempo para despejar a areia dos bolsos e salgar a água de vida.
Mas não. O Outono veio para ficar.
11.09.2007
The brilliant dance
"And the picture frames are facing down
and the ringing from this empty sound
is deafening and keeping you from sleep.
And breathing is a foreign task
and thinking's just too much to ask
and you're measuring your minutes by a clock that's blinking eights.
This is incredible.
Starving, insatiable,
yes, this is love for the first time.
Well you'd like to think that you were invincible.
Yeah, well weren't we all once before we felt loss for the first time?"
Às vezes há magia. Outras não.
10.27.2007
Amo-te, vida
Amo a vida. Amo-a tanto que sorrio para o mundo como se sorrisse para mim. Arranco-a do peito e mostro-a a quem quiser ver. Amo-a como ela não me ama a mim. A vida também é egoísta, sim. Não me venham dizer que não. Pensa que tenho de a amar como se não houvesse mais nada para viver se não a vida. Vivo com a paixão obcessiva, desmedida, com o que a vida fez de mim. Amo o que não sou, por ser vida essa, fora de mim. Amo-a "tanto que chega a doer".
P.S.- Não gosto da palavra "namorado".
10.23.2007
Lá vêm os bobos.
Lá vai a corte. Lá vão os bobos ocupando o seu lugar de destaque. Vês como eles divertem as pessoas? Vês como nos divertem a nós? Lançamos gargalhadas trocistas ao seu passar majestoso e arrogante.
Lá vão os bobos. Vestidos com fatos originais de cores garridas. Pintados com máscaras que lhes tapam o rosto e o enchem de falsos traços e sombras. Dançando para o povo que os observa, extasiado, como se a corte fossem só eles: os bobos.
Mas se calhar, o povo não vê o que nós vemos. Não é se calhar, é mesmo. O povo não vê o que nós vemos. Rimo-nos da sua estupidez. Troçamos da sua ignorância. Enjoamo-nos com a sua falsidade.
Olha só para aqueles bobos repletos da sujidade nojenta que lhes tapa a cara e lhes esconde os traços. Olha, olha! Aquelas roupas que nem sequer são as deles. Ris-te. “São feitas para eles.” Rimo-nos. Claro que são. Não poderiam ser para mais ninguém a não ser para os bobos da corte.
A hipocrisia que tilinta nos sinos dos seus chapéus ressoa-me na barriga. Tlim, tlim, tlim.
Vês como eles os adoram? Adoram tudo o que é falso neles. Adoram tudo o que neles não é, nunca foi e, provavelmente, nunca será. Vivem dentro de um ciclo vicioso. E o povo entrou dentro dele. Claro que não consegue sair. Os bobos não deixam. Nem o povo quer. Oh, comodistas imbecis.
Ahaha. Vê! Vê o povo deliciado pela mentira que pensa ser meia-verdade, meia-mentira. Vê o povo que prefere o bobo à princesa e à rainha. Vê o povo, que povo mais estúpido que aprendeu com os bobos que o erro é passível de ser perdoado agora e sempre.
Eles bem que nos puxam lá para dentro daquela bolha manchada de podridão. Lá conseguiram levar uns quantos, mas nós não. Sim, sim, somos fortes. Somos superiores (a isso) e orgulhamo-nos nisso. Mas ninguém quer ser como nós. Querem todos ser como os bobos. Querem todos ser o que acham que os bobos são. Mas os bobos não são isso, são outra coisa. Mas eles não querem saber o que os bobos são. Querem antes que eles sejam assim.
Bobos estéreis de verdade nos olhos e na boca. Em tudo o que fazem. Em todo o lado por onde passam. Pais da falsidade e filhos da adoração.
Nota: Qualquer semelhança com estes bobos (obrigado Sara, pela inspiração) ou com este povo não é, de todo, coincidência. Inspirei-me em vocês.
http://dafotoguy.deviantart.com/art/Jester-24576700
10.17.2007
10.16.2007
Could I have this dance?
Vês a marioneta deitada e amarrotada lá no cantinho sujo de tanto pó? Sou eu. Vai-me lá buscar e limpa-me de todas as impurezas que insistem em me camuflar. Desfaz-me os nós que me prendem os movimentos do coração.
Agora pega nos pauzinhos de madeira, já gastos pela espera e carcomidos pelo hábito, e balança-me ao ritmo das notas musicais que inventei só para ti, afinal, tinham de ser únicas. Não te preocupes com o tom, esse é o da vontade.
(Olha um mi bemol, um ré sustenido lá no meio. Mistura-os entre o meu ritmo e verás que me entendes.)
Deixa os pauzinhos e pega antes
Depois, balança-me de novo. As notas são as mesmas. O tom? Mais forte ainda.
Nota: Influências dela.
10.06.2007
Faz frio lá fora, faz tanto frio lá fora
O mundo é para quem nasce para o conquistar
Álvaro de Campos, Tabacaria
E os dias passam: assim.
10.01.2007
IV
Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para acordar de novo.
Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.
VI
Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desenho encontrá-la,
Quase prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
O Pastor Amoroso, Alberto Caeiro
P.S.- Tenho um buraco naquela coisa chamada alma, que chega até à cabeça. Por isso, antes ler outros.
9.22.2007
No País das Maravilhas
O chapéu negro na cabeça levemente inclinado para a frente. O copo com absinto. A folha de papel (não que seja precisa, não agora).
Começo por beber o absinto em largos tragos. Quando pouso o copo sinto o líquido caminhar sobre a minha língua, acidificando-me suavemente com aquele sabor amargo e tóxico.
Desce pelo esófago e aquece-me por dentro. Arrepio-me.
Vou enchendo o copo mecanicamente até ficar completamente anestesiada. Aquela sensação pura.
Percorro o mundo metafísico de mãos dadas com a minha borboleta-anjo.
Foto: http://fairy-bluebird.deviantart.com/art/just-fly-34819780
9.03.2007
Dependência histérica
Quero-te, merda. E tu a mim. Quero morder cada centímetro da tua pele – do nariz, ao peito, à cintura, aos tornozelos, aos pés – para as feridas cicatrizarem e deixarem a marca da minha paixão histérica. Quero arrancar-te a pele, perfurar a tua carne até ao coração e sentir que, na minha presença, ele bate mais forte, mais descontrolado, bombeando mais sangue para baixo do que para cima.
Abandono o meu próprio corpo. Vejo-me do lado de fora e, no entanto, sinto cada pedaço de mim pulsar com uma energia excitante, um apetite voraz, como se fosse a derradeira despedida.
Puxas-te para mim com tamanha força que já não me sinto a mim, apenas te sinto a ti. O teu corpo como se fosse o meu, o teu suor a sair dos meus poros, o mesmo querer insaciável.
Não te devoro. Não, consumo-te lentamente até o prazo de validade da minha dependência acabar.
Oh, quero-te tanto que te chego a amar. E no meio da doce, doce dependência histérica, desejo fazer-te tudo isto lentamente, suavemente, docemente, para que saiba a eternidade. Da próxima vez, mandas tu.
(Diferente, com uma pontada de sarcasmo.)
Foto: clockworkApple.deviantart.com
8.31.2007
O paraíso existe
A perfeição é algo que todos sabemos o que é – sabemos, como quem diz – mas nunca ninguém presenciou. Diz-se que é impossível atingi-la, que nada nem ninguém é nem pode ser, jamais, perfeito. Sendo assim, pergunto-me o que isto foi. Se não foi um estado (quase) absoluto de uma perfeição, efémera apenas pela restrição temporal, foi o quê?
A perfeição não existe? Permitam-me discordar. Podemos moldar a ideia de perfeição como podemos moldar as palavras que nós próprios criámos. E digo moldar essa ideia, esse conceito formado por alguém, pois não é um simples grão de areia que altera a imensidão do mar do deserto. Obviamente que ele tem a sua importância: se cada simples grão fosse excluído, deixaria de haver deserto. No entanto, a questão é o quão importante é relativamente ao todo e não a sua importância singular. É verdade. Os momentos menos bons, se é que existem, não têm a mínima hipótese, são completamente esmagados em pó, levado pelas suaves ventanias.
Sim, isto é perfeito. É um mundo à parte. Tão à parte que a única conexão com o mundo exterior é mesmo a desprezável existência de tecnologia. Tão à parte que só nós o compreendemos.
É o meu habitat natural. Afinal, pergunto-me se, durante cerca de dez meses apenas sobrevivo ou se simplesmente intervalo da vida. Porque se vivo durante o ano lectivo, o que faço eu agora?
E ainda há quem diga que o Paraíso não existe. Lamento desiludir os cépticos, mas o Paraíso existe. Eu estive lá. Nós estivemos lá. Como sempre.
Porque lá, voar sobre o arco-íris, lá no alto, até parece fácil.
8.27.2007
Trago-te em mim
Gosto de pensar que sou a areia que espera, sempre, paciente pelo mar, tu. Que, quando chegas, não só me tocas ao de leve - ou por vezes com um bocadinho mais de força, agressivo, as ondas a rebentarem de saudade sobre mim - mas também me envolves completamente
(A modos que voltei. Só para deixar aqui um bocadinho de Paraíso que trouxe no bolso.)
7.31.2007
7.29.2007
7.22.2007
7.19.2007
Nós
Tu.
Não de sempre, mas para sempre
Um sempre relativo, mas presente
Um sempre de agora
Um sempre para sempre.
Fica comigo,
Não deixes que a saudade volte.
Ela é dura
O medo, medonho
O amor, amargamente doce.
Fica comigo
Esta noite
Ou talvez até depois.
Dás voltas e voltas
Mas não compreendes.
Não tentes,
Não vale a pena.
Dá-me a mão,
Aperta-a bem
E vem comigo.
Não tenho medo,
Tu estás aqui.
(Acredita, eu estou aqui)
Eu e tu?
Não.
Nós.
(Escrito há mais de um ano.)
(Vou-me arrepender de postar isto.. mas em suicídios sociais já sou eu perita. Ahah.)
7.18.2007
The Holiday

Iris: "I've found almost everything ever written about love to be true. Shakespeare said "Journeys end in lovers meeting." What an extraordinary thought. Personally, I have not experienced anything remotely close to that, but I am more than willing to believe Shakespeare had. I suppose I think about love more than anyone really should. I am constantly amazed by its sheer power to alter and define our lives. It was Shakespeare who also said "love is blind". Now that is something I know to be true. For some quite inexplicably, love fades; for others love is simply lost. But then of course love can also be found, even if just for the night. And then, there's another kind of love: the cruelest kind. The one that almost kills its victims. Its called unrequited love. Of that I am an expert. Most love stories are about people who fall in love with each other. But what about the rest of us? What about our stories, those of us who fall in love alone? We are the victims of the one sided affair. We are the cursed of the loved ones. We are the unloved ones, the walking wounded. The handicapped without the advantage of a great parking space! Yes, you are looking at one such individual. And I have willingly loved that man for over three miserable years! The absolute worst years of my life! The worst Christmas', the worst Birthday's, New Years Eve's brought in by tears and valium. These years that I have been in love have been the darkest days of my life. All because I've been cursed by being in love with a man who does not and will not love me back. Oh god, just the sight of him! Heart pounding! Throat thickening! Absolutely can't swallow! All the usual symptoms."
in The Holiday
P.S.- Worth reading (nem que sejam só as partes a negrito). Worth watching (nem que seja só para ver o nosso amigo Jude Law. *drools*)
P.P.S. - Usual symptoms??
Gota de mel
Dou por mim a tentar desatar o nó que se enrolou, lentamente, na minha garganta e, ao mesmo tempo, a puxar o lençol até cobrir completamente a cabeça, de modo a abafar o latejar das bochechas húmidas.
Não é sinal de fraqueza minha. É sim, sinal de fraqueza do outro. Porque eu sinto. Eu sinto o que faço e a medida do que faço. Sinto-o tanto dentro de mim que até chega a doer.
No meio da noite, peço-lhe que me abrace. "Chega-te aqui". Salto para a cama dela e sinto-me protegida, naquele lugar onde não há medo, nem fragilidade. Consigo esquecer a tempestade lá fora, e adormeço.. no meu refúgio.
Que o tempo me perdoe as vezes que lhe pedi para acelerar o encontro com esse mundo. Afinal, ele só existe no escuro da noite, quando ninguém vê. Quando ninguém ouve o som do aperto que força a gota de mel a sair à rua.
7.16.2007
7.11.2007
O ser humano é ridículo
Não há coisa mais banal do que escrever sobre inner feelings. É banal e ridículo, como as cartas de amor, já dizia o meu caro amigo Fernando Pessoa. Eu, como self-entitled fashion victim, sigo as modas. E claro, sou banal e ridícula. Para além disso, não me sinto suficientemente inspirada para escrever sobre assuntos que ninguém escreve, como exames nacionais ou coisas mórbidas. *giggles* Afinal, escrever sobre sentimentos é a coisa mais banal do mundo. E mais fácil também, digo eu. Eu disse fácil, não tão interessante que prenda a atenção de alguém. Isso já me é completamente estranho.
O estúpido da coisa é que se vai tornando cada vez mais difícil sentir, mas torna-se ainda mais difícil ser sentido. Aliás, passamos o tempo todo a adorar e venerar que nos esquecemos de, realmente, senti-lo. E, quando tal finalmente acontece, quando sentimos o tal calorzinho na barriga, como diria o meu caro amigo Pacman, uma qualquer mão invisível e malvada tapa-nos a boca e entorpece-nos a artéria aorta. Ficamos dentro da bola de sabão, e não a conseguimos rebentar.
É-me incompreensível – talvez porque também és assim, não? *ar de enfado*. Porquê tanto medo, tanto receio? São só palavras. Deixem-nas voar. De certo que não nasceram apenas para encher páginas de histórias de amor fantasiosas e cartas de amor ridículas e melosas – elas tiveram de existir!
Talvez me sinta agarrada a este tema na ânsia de poder mudar-me a mim própria, e aos outros. Não me tenho saído lá muito bem, diga-se. Mas é necessário cooperação, e eu sinto-me como se estivesse no lugar do Professor Binns: chato, monocórdico e ignorado.
O ser humano é uma criatura tão grotesca que se ofereceu ao hábito de mão beijada. Vai ser difícil sair de lá. Vai vai.
Alguém quer começar, comigo?
(Viram? Combinei português, inglês, ciências e Harry Potter num só texto! Não é maravilhoso?)
Pride, prejudice & something else we can't remember
Pior do que não ter: não querer, querendo.. muito.
7.09.2007
Apetites. Apeteces-me.
Pudesse a velocidade do tempo ser inversamente proporcional à minha vontade de estar contigo. Pudesse o teu sorriso desenhar-se na tua cara em câmara lenta para poder apreciá-lo e redesenhá-lo sem falhar um traço. Pudesse eu observar os teus olhos e decorar-lhe o tamanho, a forma e a cor, para quando fechar os meus, ver os teus. Sim. Sorriso de açúcar. Olhos de chocolate.
7.06.2007
Ser tudo por nada
Tudo o que realmente queremos, com força, parece estar tão longe do nosso alcance, como o mar está do céu, pensa. Parece estar tão longe que o braço dói quando tenta alcançá-lo.
Como sabe que, de qualquer maneira, nunca há-de conseguir, senta-se na relva, de perninhas à chinês, e observa. Apercebe-se de que não é preciso esticar o braço para doer. Não é uma ferida. É uma espécie de dor de burro, que em vez de doer na "barriga" dói na cabeça, e no coração. E quanto mais tenta abrandar, lentamente, mais dói.
O que somos nós, afinal? Para que temos nós o dom de andar, falar, sentir se não serve de nada? É ridículo passarmos a vida a interiorizar o quão deprimidos estamos e o quão deprimente é a nossa vida. Interiorizamos também que não somos capazes de fazer nada. Que não temos jeito para nada, nem sequer para sorrir. A culpa é dos factores externos, replica ela.
Paciência. Continuará com a sua ideia de ser deprimido (e deprimente) até ter consciência de que não é preciso tocar numa nuvem para agarrar o céu. Não é preciso esticar os braços até doerem para abraçar o mar. Não é preciso ser-se feito de açúcar para se ser doce. Para se ser a melhor coisa do mundo.
Mas quais factores externos! Acorda para a vida, antes que ela entre
7.03.2007
6.28.2007
jimmy eat world, kill
Looks a mile to my feet
I wanna go to you
Funny how I'm nervous still
I've always been the easy kill
I guess I always will
Could it be that everything goes 'round by chance? (chance?)
Or only one way that it was always meant to be (be)
You kill me, you always know the perfect thing to say (hey hey,
hey hey)
I know what I should do, but I just can't walk away
I can picture your face well
From the bar in my hotel
I wish I'd go to you
I pick up put down the phone
Like your favorite Heatmeiser song goes
It's just like being alone
Oh God, please don't tell me this has been in vain (vain)
I need answers for what all the waiting after means (means)
You kill me, you've got some nerve, but can't face your mistakes
(hey hey, hey hey)
I know what I should do, but I just can't turn away
So go on love
Leave while there's still hope for escape
Gotta take what you can these days
There's so much ahead
So much regret
I know what you want to say
(Know what you want to say)
I know people can't help feeling differently
I loved you, and I should have said it
Tell me just what has it ever meant?
I can't help it baby, this is who I am (am)
Sorry, but I can't just go turn off how I feel (feel)
You kill me, you build me up, but just to watch me break (hey
hey, hey hey)
I know what I should do, but I just can't walk away
6.25.2007
Doce
Que o sentimento se torne palpável




