E, entretanto, deixas-me entrar em ti de mansinho, sem saberes ou fingires não saber para que o faça à vontade, agarrar o que é teu e fazer meu o teu corpo.
Sinto as marcas das cordas da tua guitarra nas minhas mãos, a chuva que nos lava a cara, a lama nos nossos pés, a vontade de querer na vida não mais do que música, risos e sexo.
Gozamos a vida do lado de fora, onde as pessoas são viradas do avesso, onde os hipócritas não têm direito a respirar e onde a música é Bob Dylans, Beatles, Libertines e Amys limpas que não rebentam o balão na cara de pseudo-fãs que acham que um Keith Richards em versão feminina é o sonho de qualquer homem tornado realidade.
O sabor da liberdade que nunca me tinha tocado os lábios e o coração que dá voltas pelo corpo todo e que se atira contra a parede num momento de euforia em que as luzes febris nos voltam a perseguir doentiamente, em que as rodas do comboio voltam a roçar no metal e a guinchar estridentemente, tão estridentemente que nos rasga os tímpanos, em que tudo o que é estridente, agudo, penetrante, ofuscante nos volta a assaltar os olhos, a mente e o corpo adormecido. Num momento em que as orgias de palavras se atropelam de novo na boca e em que gritamos obscenidades em uníssono como se alguém nos ouvisse, alguma vez, se é que queremos que alguém, para além de nós, nos oiça.
É a materialização do orgasmo não mais fingido. É sentir a implosão de sentidos dentro de ti como se fosse dentro de mim ou sei lá se ao contrário: é trincar a terra, lamber a chuva e rasgar o vento. Ah!, é a vida de volta à vida!
E quando, enfim, ficar sozinha de vontade, liberdade, cigarros e caminhos então perdidos, o coração atirado à parede lá ficará no sítio da materialização da vida. No sítio em que as canções em surdina e as orgias confusas fazem sentido. Deixarei lá o meu coração, mais vermelho do que nunca no fundo da parede suja, pois quando me atirares de novo para o lado de dentro da vida, já não precisarei mais dele. E quando, enfim, não mais aqui estiveres.











